quarta-feira, 2 de abril de 2014

Comunidade universitária ouve os depoimentos de alagoanos que resistiram à Ditadura Militar

Um debate cercado de muita emoção sobre as memórias de pessoas que sofreram torturas

Um auditório lotado e repleto de jovens universitários que vieram aprender mais sobre esse período obscuro da história brasileira, ouvindo depoimentos de pessoas que foram presas e torturadas ou de familiares de desaparecidos. O segundo dia de debates sobre os 50 anos da ditadura militar foi cercado de muita emoção, a cada palavra arrancada com dificuldade para falar sobre lembranças que são dolorosas para quem foi vítima da repressão.

A coordenadora do programa Ufal em Defesa da Vida, professora Ruth Vasconcelos, ressaltou esse momento histórico para a universidade. "Não estamos aqui para ouvir pessoas que falam sobre o que leram em documentos, mas para conhecer testemunhas que são memórias vivas dessa história e que falam sobre o que vivenciaram. Isso faz uma diferença fundamental", destacou a professora.

O primeiro a contar sua história foi Valmir Costa, veterinário, hoje com 70 anos, que na época do Golpe Militar era líder estudantil em Pernambuco. Ele narrou sobre os protestos que se seguiram à prisão do então governador, Miguel Arraes. " Disseram que o golpe foi para impedir o avanço de um comunismo perigoso, mas era na verdade uma reação às reformas de base que João Goulart queria implementar no país", esclareceu ele.

Valmir destacou a importância de revelar detalhes dessa história enquanto ainda temos sobreviventes desse período, porque muitos distorções foram colocadas, inclusive na imprensa. "Ainda assim, é importante ver esses fatos sendo revelados e chamando a atenção da sociedade. Essa semana, o golpe militar foi o tema de capa de todas as revistas de circulação nacional, menos a Veja, que nem neste momento consegue disfarçar seu ranço reacionário", criticou o militante.

Valmir foi preso junto com a esposa, Maria das Graças, e levado para o Doi Codi em Recife, onde foi torturado
para revelar a localização da cunhada, Selma Bandeira, líder atuante no período e que participou da política alagoana até a década de 80, quando morreu num acidente de carro. "Também foram presos na época Lauro Bandeira e Sônia, os irmãos de Selma, e ainda minha irmã, Vera Lucia Costa, que nunca pegou numa arma", protestou Valmir.

Muita emoção também quando Olga Miranda, filha do jornalista desaparecido, Jayme Miranda, contou sobre a difícil infância que tiveram, mudando de residência sempre, para evitar a prisão do pai. Ela falou sobre as constantes invasões dos policiais ao Hotel Atlântico, na praia da avenida, em busca de provas contra o jornalista. "Mas as únicas armas do meu pai eram as palavras e do dom da oratória", contou Olga.

Em 1975, Jayme Miranda foi sequestrado no Rio de Janeiro e levado para São Paulo. "Nunca soubemos o que de fato aconteceu, mas o depoimento de um policial revelou que ele foi morto, esquartejado e seus restos mortais foram jogados no rio Avaré", disse Olga, arrancando lágrimas da platéia. "Nunca pude velar o meu pai, mas graças ao programa Ufal em Defesa da Vida, pelo menos plantei uma árvore, no bosque da memória, em homenagem a ele", concluiu Olga Miranda, bastante emocionada.

Fernando Costa, médico veterinário, que também foi preso e torturado durante a ditadura, lembrou que muitos dos sequestrados políticos em Alagoas eram estudantes da Ufal. "Na época, o reitor Nabuco Lopes abriu inquéritos universitários para suspender esses estudantes, que não tinham como se defender. É oportuno que o debate aconteça aqui porque a Ufal deve esse resgate à memoria desses estudantes", disse Fernando.

Outro depoimento que emocionou à todos os presentes, foi o da economista Maria Ivone Loureiro, que foi presa em 1971, dias depois do marido e companheiro de lutas, Odjas de Carvalho. "Fui presa em Natal, com Rosa Soares e outros companheiros. Depois fomos trazidos para o Doi Codi em Recife. Fiquei numa cela que depois me disseram ser a mesma onde ficou Odjas. Estava toda suja de sangue dos militantes políticos torturados", narrou Ivone.

Quando finalmente conseguiu confirmar que Odjas foi morto durante as torturas, Ivone, ainda presa no Doi Codi, resolveu protestar. "Pedi para ir ao banheiro e da janela dava para ver o setor do Doi Codi onde os cidadãos iam tirar seus documentos. O local estava lotado e eu gritei o quanto pude que Odjas foi morto e que nós estávamos sendo torturados ali no prédio. O fato se espalhou e gerou protestos de dom Hélder Câmara", contou Maria Ivone.

O tempo foi curto para tantas histórias emocionantes. Falaram ainda o professor universitário, José Nascimento França, e o sociólogo e padre casado, José Antônio Monteiro. Ambos iniciaram a militância política na Igreja e depois aderiram aos movimentos marxistas. "Acreditávamos na opção preferencial da igreja pelos mais pobres", concluiu Nascimento.



"Venho da pátria dos tormentos.
Venho de um tempo de crimes.
Venho das chagas que a noite
lavrou na carne dos homens"
(Marcha - Pedro Tierra)

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Histórias de dor e esperança...

A primeira vez que eu fui até ao lixão de Maceió foi em 1997. Em meio aquela montanha de lixo com vista para o mar, mulheres, homens e crianças catavam o que podia ser reaproveitado e gerar algum trocado. Fui para fazer uma reportagem e a emoção tomou conta. Pensando na vida daquelas pessoas revirando os restos jogados pela sociedade, editei a matéria com o Samir Sena, na época para o programa Alagoas na TV, para a TV Alagoas.

Depois, voltei lá algumas vezes, para fazer matérias e também para participar dos debater realizados pelo Centro de Educação Ambiental São Bartolomeu (Ceasb), com a Ana, o Clébio e outras pessoas que já naquele período buscavam alternativas para melhorar a vida daquela gente. Como repórter policial também fui à Vila Emater, para registrar a violência que atinge a rotina de quem está privado das mínimas condições de uma existência digna.

Acompanhamos as exaustivas idas e vindas, até que o lixão foi desativado, em 2010, e o lixo da cidade passou a ser levado para o aterro sanitário. Antes disso, um golpe de dor na cidade. Um menino de 12 anos, dormia no lixão, coberto por jornais, exausto, e não ouviu o caminhão se aproximar... foi atropelado. Doeu na Vila Emater, doeu em Maceió. Esse drama provocou revolta e indignação... não era para menos. Aquele menino expôs o descaso com que a infância desprotegida das crianças alagoanas.

Foi com toda essa carga de histórias na mente e no coração que eu assisti ontem a peça "Histórias Recicladas", escrita e protagonizada por ex-catadoras de lixo, hoje organizadas em uma cooperativa de reciclagem, a CoopVila. Eu chorei... ontem enquanto assistia a peça, na redação, enquanto fechava o texto, depois na gravação dos offs e ainda hoje, quando assiste à matéria na TV. Não consigo olhar para essas mulheres corajosas, que superam a cada dia dificuldades enormes, para manter a esperança e encontrar alguma alegria na vida, sem me emocionar...

Desejo à elas que as histórias se reciclem cada vez mais, até se transformar em paz, alegria, dignidade. Desejo à nós que nunca nos tornemos indiferentes...

Reportagem sobre a peça "Histórias Recicladas" exibida no jornal da Pajuçara Manhã

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Os estudantes que entraram numa fria...

Brincadeira o título... os estudantes do mestrado em Meteorologia da Ufal causaram-me uma ótima impressão. A ciência não é só teoria, nem a solidão tranquila de um laboratório. Eles saíram deste calorão de Maceió e mergulharam numa sensação térmica de menos 30 graus! Eu nem consigo me imaginar por algumas horas neste congelador imenso, avalie passar dois meses nessa paisagem gelada, desconfortável e pouco familiar!

Para monitorar os equipamentos, eles foram a campo, tendo como abrigo apenas um carro com aquecedor ligado, onde podiam dar alguns cochilos, e quando saiam do veículo, tinha que ser com as pás nas mãos, limpando a neve, para não cobrir totalmente o carro. Leandro e Carlos, que nunca antes tinham visto neve, tiveram que caminhar por campos nevados até a altura do joelho!

Eles tiveram bons momentos e aprenderam muito. Mas é preciso coragem e desprendimento para fazer um intercâmbio assim,
no inverno mais frios dos últimos 20 anos, nos EUA. E ainda passar um natal tradicional, junto à lareira, com um pinheiro natural exalando seu perfume na sala, pessoas rosadas trocando presentes, tudo como nos filmes... mas longe da família!

Gostei de conhecer essa história e de escrever sobre ela para o portal da Ufal

Veja a reportagem no porta da Ufal aqui 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O risco das cores...

Puxa, quanto tempo sem atualizar meu blog! Também, além do trabalho, que ocupa muitas horas do dia, tem as postagens no face, twitter, instagram, linkedin... não é fácil dar conta de tantas redes sociais!

Mas volto aqui para refletir sobre uma situação engraçada na rotina de repórter. Chegamos na redação sem saber a pauta. Lá no mural está a tarefa do dia. Dependendo da força dos simbolismos, isso cria situações difíceis, do tipo: em 2012, eu estava de terno vermelho. Calça, blazer e até a blusa de dentro era de listras brancas e vermelhas...

Qual foi minha pauta? Ir nas torcidas organizadas Comando Vermelho e Mancha Azul ver o que os líderes estavam pensado das determinações do Ministério Público para coibir a violência nos estádios. Claro que falar com a comando foi fácil. Eu estava na "vibe" deles, né?

Agora pense a minha ansiedade ao subir as escadas da sede da Mancha Azul, na rua do Sol, e me deparar com um desenho de um fantasminha azulado e um cartaz: "Proibido entrar aqui de vermelho"! Puxa... vou apanhar! - eu pensei. Mas respirei fundo e... fui. Já entrei levantando as mãos para o alto e brincando: "desculpa, gente. Não sabia que viria para cá!"

Ainda bem que o líder da torcida reagiu com bom-humor e me concedeu a entrevista. Os amigos dele não ficaram com um olhar muito amistoso não. Mas sai ilesa da sede, jurando que o Edson Moura nunca mais me faria passar por uma dessas.


Mas, eis que ontem, 29 de janeiro, eu chego na redação e me deparo com uma pauta sobre a venda de ingressos para o jogo do CSA contra o Santa Cruz nesta quinta-feira, no rei Pelé. Galera azulina nas filas para comprar ingresso, alguns cabulando o trabalho escondido do patrão... ir no centro de treinamento, em pleno Mutange para conferir o clima entre os jogadores, com o time vivendo uma boa fase... e eu de blusa vermelha...

Puxa vida! De novo, Edson Moura??? Vou andar com uma blusa branca de reserva no carro. Sou da paz!!! Fazer o que, né? Lá fui eu cumprir a missão. Tudo certo. Todo mundo feliz com as vitórias recentes, apostando em mais um bom resultado. Se alguém percebeu que eu estava de vermelho, nem comentou.


Mas, por via das dúvidas, nesta disputa entre o cordão encarnado e o cordão azul, quero ser a Diana!!!

Olha aí eu e o cinegrafista Henrique Moura, conferindo o resultado de mais um dia de trabalho, ser arranhões, que bom!!!

Veja a reportagem aqui 

domingo, 16 de setembro de 2012

Emancipação de Alagoas: a separação de Pernambuco a construção de uma identidade alagoana


Neste domingo, 16, a emancipação de Alagoas completa 195 anos. O desmembramento do território alagoano da capitânia de Pernambuco aconteceu num período em que o movimento contra a coroa Portuguesa se fortalecia em algumas regiões do país. Apesar de encontrar adeptos em Alagoas, a insurreição contra a monarquia foi "abafada" na Comarca, o que levou historiadores, a exemplo de Francisco Augusto Pereira da Costa, a defenderem a tese de que a emancipação foi concedida em recompensa por Alagoas não ter aderido ao movimento republicado, mantendo-se fiel à Portugal.

Seis décadas depois, Alagoas acabou tendo uma participação destacada na construção da República Brasileira. O proclamador do novo regime, Foi justamente o alagoano, Marechal Deodoro da Fonseca, e o primeiro presidente do Brasil, outro alagoano, Floriano Peixoto. Desta forma, é preciso refletir qual o lugar de Alagoas na história do Brasil? Por que, com uma cultura tão rica, ainda estamos construindo uma identidade alagoana? E por que esse Estado tão promissor, declamado no hino como a "estrela radiosa", ainda hoje concentra índices tão negativos em termos de desenvolvimento social?

Para nos ajudar a pensar sobre os questionamentos que cercam essa importante data histórica, buscamos a ajuda do historiador Antonio Filipe Pereira Caetano, professor Adjunto do departamento de História da Ufal e coordenador do Grupo de Estudos América Colonial. Confira a seguir as reflexões do historiador sobre a Emancipação Política de Alagoas.


Em que contexto se deu a emancipação política de Alagoas? Essa "liberdade" foi mesmo um prêmio da coroa porque Alagoas resistiu aos levantes contra a dominação portuguesa?

Filipe - A emancipação política de Alagoas insere-se nos episódios conectados a Insurreição Pernambucana, em 1817. Movimento este que "conspirava" contra o governo português e chegou a instaurar um governo provisório na sede da Capitania (Recife). Influenciada pelos ideais resgatados da Conjuração Baiana e Inconfidência Mineira, os "pernambucanos" sentiam-se preteridos pelas mudanças impostas pela família real portuguesa que muito mais beneficiava o Rio de Janeiro (sede da corte) do que as outras capitanias. Visto por alguns historiadores com cunho liberal, o movimento tentou se espalhar pelas demais localidades da Capitania, inclusive a Comarca das Alagoas. Com adesão em parte do território Alagoano, o movimento pernambucano foi sufocado com a intervenção do Ouvidor Batalha, que criava um governo provisório desmembrando o território de Alagoas de Pernambuco. A medida de Batalha foi contemplada com a chancela de D. João VI, em 16 de Setembro de 1817, emancipando de vez o território alagoano de Pernambuco.

Em meu entendimento, a liberdade como "prêmio" desmerece o lugar estratégico que o território alagoano ocupava no imaginário político e de poder da administração portuguesa. Isto porque, acredito no profundo conhecimento da coroa portuguesa do território alagoano e de suas diferenças (políticas, econômicas e sociais) em relação à sede da Capitania. Principalmente, se levarmos em consideração que o pedido de desmembrando não era uma novidade nos bastidores portugueses, já citado e incentivado, inclusive, por membros do Conselho Ultramarino.

Quais as consequências desta emancipação para o nosso desenvolvimento social e político?

Filipe - A Emancipação inaugura um novo território administrativo no cenário colonial. Enquanto ligado à Portugal (até 1822), a emancipação trazia uma aliado político nas lutas complicadas de manutenção do governo português na América, situação que estava cada vez mais complicada de se manter. Após a independência brasileira, em 1822, a Província das Alagoas é uma das poucas localidades que reconhece a soberania de D. Pedro I de maneira rápida e imediata. Todavia, acredito que 1817 representa a consolidação de uma "identidade" alagoana, construída ao longo de quase um século a partir da criação da Comarca (1712), possibilitando a demarcação das diferenças culturais e sociais entre Alagoas e Pernambuco.

O que é importante hoje refletir quando pensamos na História de Alagoas?

Filipe - Acredito que a principal reflexão que deve ser feita é: o que é o território alagoano no cenário nacional e de que forma o processo histórico de sua formação contribuiu ou contribui para a manutenção ou alteração dessa imagem?

Sem dúvida, historicamente, o passado alagoano é marcado pelos engenhos de açúcar, pelas lutas dos quilombos, pelos massacres dos caetés e pelos comportamentos "traíras" de Calabar e da "elite alagoana" em 1817. Imagens e histórias contadas e (re)contadas por curiosos, historiadores e livros didáticos. Mas, por outro lado, a questão mais interessante é: até que ponto o passado alagoano se ressume a isso? Ou seja, de que forma Alagoas contribui para a formação cultural nacional? Como o território alicerçou forças políticas brasílicas? Qual o lugar da produção econômica alagoana na tessitura nacional?

E falando de hoje, que herança é essa que nos leva a concentrar os piores indicadores sociais e de violência do país?

Filipe - Acho cruel pensar no passado escravista, monocultor e latifundiário como o único responsável pela mazelas sociais e índices de violência no país e no território alagoano. Sem dúvida alguma, estes são elementos que criaram uma base, um sistema e um mecanismo de controle difícil de se romper. Mas, ao mesmo tempo, o presente com suas contingências e vicissitudes e modelos preestabelecidos demonstram claramente a quem interessa a manutenção da pobreza, do aceleramento das desigualdades sociais e da incidência de atos de violências em áreas específicas do território nacional e local. Só assim para explicar como países que tiveram "heranças" tão similares a nossa possuem, na atualidade, índices baixos de violência e um grande desenvolvimento social. Logo, a raiz de muitas mazelas sociais alagoanas remetem a 1817 não pelo passado colonial mas sim pelos agentes políticos que direcionaram a economia, fundaram ideologias, moldaram comportamentos sociais e restringiram o acesso a "emancipação" de camadas "menores" da população.

Professor, pode ficar à vontade para refletir sobre outras questões que os alagoanos precisam conhecer sobre a história e precisam refletir nos dias atuais...

Filipe - O mais importante ao se refletir sobre a história de Alagoas, em meu entendimento, é privilegiar o que há de particular, específico e peculiar no território alagoano e sua interface com o regional (Pernambuco/Nordeste), nacional e, até mesmo, internacional. Pensar a História de Alagoas aprisionada a Pernambuco não ajuda a compreender a formação de um povo, de uma Comarca, de um Província ou de um Estado da Federação. Questões como a história das irmandades religiosas, da própria escravidão em Alagoas (estudo deveras atrasado em comparação com outros Estados), de suas atividades econômicas e sua inserção no cenário nacional, dos conflitos sociais para além dos quilombos, da constituição dos grupos populares, da formação da cultura local e, o mais importante, da identidade alagoana ainda estão esperando curiosos, pesquisadores e historiadores para serem feitos.

Bibliografia Recomendada:

CAETANO, Antonio Filipe Pereira (Org.). Alagoas e o Império Colonial Português: Ensaios sobre Poder e Administração. Maceió: Cepal, 2010.

LINDOSO, Dirceu. Interpretação da Província. Maceió: Maceió/São Paulo: Catavento, 2000.

SANT’ANA, Moacir Medeiros de (org.) Documentos para a história da independência. Recife: Comissão executiva dos festejos do sesquicentenário da Independência do Brasil/IHGAL, 1972. 



segunda-feira, 21 de maio de 2012

De funcionário em empresa de ônibus à pesquisador de computação matémática

Uma das coisas de que gosto no meu trabalho na Ufal é conhecer pessoas que superaram dificuldades para alcançar um sonho. É assim nessa história. Entrevistei o Antônio Medeiros, conhecido como Tonny, que era funcionário de uma empresa de ônibus, onde fazia a escala dos rodoviários, e agora é bolsista de iniciação científica no Centro de Pesquisas em Matemática Computacional da Ufal.

A matéria abaixo foi publicada no site da Ufal

Antônio Medeiros é aluno do curso de Meteorologia e bolsista de iniciação científica do Centro de Pesquisas em Matemática Computacional (CPMat). O interesse dele em análise   numérica começou por acaso, quando foi contratado por uma empresa de transporte coletivo  urbano para fazer a escala dos rodoviários. “Eu usava as planilhas para distribuir as rotas, de  forma que ninguém fizesse hora-extra ou ficasse com horas ociosas. Na época, eu fazia isso  intuitivamente, mas hoje eu percebi que é um problema computacional dos mais difíceis”,  explica Antônio.

Um amigo que fazia universidade falou sobre o desempenho de Antônio para o professor de Matemática Computacional, Alejandro Frery. “O professor se interessou pelo que eu fazia e fui contratado pelo Laboratório de Computação Científica e Análise Numérica (LaCCAN) com uma bolsa trabalho, o que, de certa forma, mudou minha vida, porque o convívio neste ambiente foi decisivo para acreditar no meu potencial. Quando o professor Alejandro se afastou para fazer o pós-doutorado, ele me indicou para trabalhar no Laboratório de Computação Científica e Visualização (LCCV), com carteira assinada, prestando serviço”, contou Antônio.

O pesquisador tinha parado os estudos em 2004, quando concluiu o ensino médio na rede pública. Depois que foi contratado para trabalhar no LaCCAN e, em seguida, no LCCV, Antônio fez cursinho e se preparou para conquistar uma vaga na universidade. Foi aprovado para o curso de Meteorologia em 2009 e, a partir de 2011, passou a ser bolsista de iniciação científica no Centro de Pesquisas em Matemática Computacional (CPMat). “Pedi demissão no trabalho para me dedicar à pesquisa e aos estudos”, relatou o estudante.

Precisão numérica de software

A maioria dos artigos que Antônio publicou até o momento é sobre a precisão numérica de software. “A pergunta que tentamos responder nesses trabalhos é 'posso acreditar no resultado que o software me fornece?'. Uma forma de responder a pergunta seria saber exatamente como funciona o software, mas em se tratando de programas comerciais, como o Excel, nós não temos essa informação”, explicou o estudante.

“Outra forma, a que adotamos, é colocar dados complexos numericamente e para os quais temos o resultado exato da conta. Para testar se o software é bom para lidar com muitos valores, posso repetir o valor "1" cem milhões de vezes. Eu sei que a média é 1. Qualquer coisa diferente estará errada. É assim que trabalhamos avaliando planilhas (o Excel entre elas) e outras plataformas. Descobrimos que nenhuma planilha é boa para as principais operações básicas”, concluiu o pesquisador.

Segundo Medeiros, os trabalhos nessa linha foram muito bem recebidos nas conferências onde foram apresentados. “Isso nos encorajou a fazer versões mais aprofundadas e detalhadas, e mandamos essas versões para periódicos. Publicamos no Journal of Statistical Software, que é um dos mais importantes indexados da área de estatística computacional, e, mais recentemente, no Computational and Applied Mathematics”, relatou o pesquisador.

Dedicação à pesquisa

Antônio Medeiros fica muito emocionado quando fala de suas conquistas como bolsista de iniciação científica, afinal, foram muitos obstáculos superados para participar da produção acadêmica. “Fico muito orgulhoso por essas publicações, pois sei que ter artigos em periódicos indexados [a indexação é uma referência para outras pesquisas na mesma área é um indicador importante para o pesquisador. Sou um iniciante e acredito que estou no caminho certo, orientado pelas pessoas certas”, comemorou.

O estudante está no sexto período de Meteorologia e pretende continuar os estudos mesmo depois de concluir a graduação. “Gostaria muito de continuar minha formação como pesquisador, e para isso preciso fazer pós-graduação. Já conversei com pessoas da Conae [Comisión Nacional de Actividades Espaciales] da Argentina. Essa agência tem um mestrado internacional onde posso aliar minha formação em Meteorologia com o que venho aprendendo no Laboratório de Computação Científica e Análise Numérica (LaCCAN) sobre computação e processamento de imagens”, destacou.

A partir destes contatos, o pesquisador iniciante desenvolve planos para o futuro. “Tenho ainda que aprimorar o inglês e o espanhol. Para isso estou estudando nas Casas de Cultura da Ufal”, contou ele. “Não sei direito qual vai ser minha linha de pesquisa. Isso é muito dinâmico. No momento estou trabalhando com os professores Alejandro Frery, Eliana Almeida e o pesquisador visitante, Aníbal Rosso, na análise de imagens SAR - Synthetic Aperture Radar [Radar de Abertura Sintética]. Estamos adaptando as ideias do professor Rosso à análise dessas imagens, e já temos resultados muito promissores para discriminar vários tipos de alvos em imagens de SAR que eram invisíveis às técnicas clássicas”, relatou Antônio Medeiros.

Com esta trajetória de superação e dedicação à pesquisa, Antônio Medeiros já conseguiu incentivar colegas a avaliar o ensino superior como uma meta possível de ser alcançada. “Quando você precisa trabalhar muito para pagar as contas, a rotina esmaga alguns projetos maiores, mas eu tive a chance de ver que é possível cursar a universidade e produzir ciência, mesmo tendo que preencher as lacunas de um ensino médio deficiente. Agora, o meu sonho é voltar ao LaCCAN como doutor pesquisador produtivo”, conclui o estudante.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Yaathe é a única língua indígena que permanece viva no nordeste

O interesse da professora Januacele da Costa (de azul na foto), da Faculdade de Letras da Ufal, começou quando ela ainda era criança. Natural de Águas Belas, Pernambuco, onde fica a aldeia dos Fulni-ô, Januacele presenciava os índios conversando na língua materna. “Mas era uma comunicação cercada de preconceitos. As pessoas da cidade mantinham uma certa distância. Diziam que os 'cabocos' estavam 'cortando língua'”, conta a pesquisadora.

Quando começou o mestrado em Letras, na Universidade Federal de Pernambuco, o interesse da infância se tornou objeto de estudo, abraçado com muita paixão por mais de duas décadas. A dissertação de mestrado foi dedicada ao perfil sociolinguístico dos Fulni-ô e a tese à descrição da língua, o Yaathe. “É um fato extraordinário que, mesmo depois de 300 anos de contato com a colonização branca, com todo o peso das missões católicas e da dominação cultural, os Fulni-ô tenham conseguido manter a língua ancestral viva e funcional, sendo utilizada no dia a dia da comunidade”, diz com entusiasmo a pesquisadora.

Na Ufal, desde 1993, como professora da graduação e pós-graduação em Letras, Januacele já orientou e produziu vários trabalhos científicos sobre a gramática da língua Yaathe, teoria e análise linguística e documentação da língua. Mas toda essa pesquisa é pautada por um grande respeito pela cultura Fulni-ô. “Para eles é uma língua sagrada, que não é ensinada a pessoas de fora da aldeia, por isso, os trabalhos de caráter didático que produzimos ficam na aldeia. O que divulgo são os artigos científicos”, ressalta a linguista.

A pesquisadora relata que, na escola da aldeia, o Yaathe é ensinado com o mesmo status do Português. “Não são palavras isoladas, ensinadas como curiosidade. Os Fulni-ô são bilíngues, pelo menos 90% deles falam fluentemente as duas línguas, o Português e o Yaathe”, destaca Januacele. A língua e os rituais sagrados mantêm a nação unida, com fortes vínculos culturais e tradições que são repassadas para as novas gerações.

Da tribo ao universo acadêmico

Preservar a cultura indígena não significa se manter à margem do conhecimento acadêmico, muito pelo contrário. A comunidade científica demonstra um grande interesse pela forma como os Fulni-ô mantêm com orgulho a sua identidade cultural. As novas gerações de índios também buscam se apropriar das ferramentas científicas que estão ao alcance deles.

É desta forma, com um pé na aldeia e outra na academia, que Fábia Pereira da Silva (de preto na foto acima) se identifica como Fulni-ô e doutoranda em Linguística da Universidade Federal de Alagoas. “Para nós é motivo de muito orgulho preservar a nossa língua sagrada. É uma língua falada internamente pelo meu povo e temos algumas regras para manter o respeito por essa cultura. Por isso, mesmo como objeto de pesquisa científica, temos muito cuidado sobre como divulgar a nossa língua”, conta a estudante do doutorado em Linguística.

O estudo da língua materna já rendeu muitos estudos para Fábia. Desde a graduação, ela já era bolsista de iniciação científica com trabalhos voltados para a língua da sua etnia, pesquisas que renderam dois prêmios de excelência acadêmica. No mestrado, concluído em 2011, ela elaborou um trabalho sobre a sílaba em Yaathe. No doutorado, iniciado este ano, a estudante pretende continuar seus estudos sobre Fonologia da língua. “Meu objetivo é aplicar os conhecimentos adquiridos na sistematização de uma escrita para o Yaathe, que poderá ser usada no ensino da língua nas escolas da aldeia”, informa a estudante Fulni-ô.

Grupo de pesquisa em Fonética e Fonologia

O grupo de pesquisa em Fonética e Fonologia, da Faculdade de Letras (Fale) da Ufal, está registrado no diretório de pesquisas do CNPq desde 2006. O grupo é coordenado pelos professores Januacele Francisca da Costa e Miguel José Alves de Oliveira Junior. Ao todo, são seis professores pesquisadores e mais nove estudantes, entre eles, a estudante indígena Fabia Pereira.

Em 2010, o projeto Documentação da Língua Indígena Brasileira Yaathe (Fulni-ô) foi aprovado pelo CNPq. O objetivo do trabalho científico é compor um banco de dados da língua, com registros variados de palavras, cânticos e outras formas de expressão na aldeia que preservam a fala ancestral. “Na aldeia, existe uma quantidade razoável de material coletado, mas é preciso um trabalho de digitalização e organização para armazenamento, de modo a que esse material possa efetivamente vir a constituir um banco de dados da língua”, relatam os coordenadores da pesquisa.

Apesar de preservada, a língua Yaathe corre o risco de extinção, por isso, uma questão importante deste trabalho, é que toda a documentação conta com a participação dos índios Fulni-ô. “A transcrição e tradução dos dados são feitas com o auxílio dos professores de Yaathe, o que proporcionará uma discussão acerca de um modelo adequado de grafia a ser adotado, com aprovação da comunidade”, destacaram os pesquisadores.

Sobre os Fulni-ô


Segundo o site Culturas Indígenas, Fulni-ô significa "povo que vive ao lado do rio". De acordo com Fábia, na verdade, Fulni-ô significa, literalmente, "povo que tem rio". A aldeia, de 11 mil hectares, se localiza no município de Águas Belas, em Pernambuco, entre o rio Ipanema, a Serra Comunaty e a Serra Preta. Em 2007, a população da tribo era de aproximadamente 4.500 pessoas. De acordo com informações dos pesquisadores, atualmente, a aldeia deve ter cerca de seis mil índios da etnia Fulni-ô.
(foto do site overmundo)

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